Fatehpur Sikri
Chegamos a Agra numa sexta-feira, dia em que o Taj Mahal está fechado para visitação. Então combinamos com o motorista do hotel que nos buscou na estação de trem que ele passaria o dia conosco e nos mostraria outras atrações.
Nossa primeira parada foi Fatehpur Sikri, construída em 1570 pelo imperador Akbar para ser a nova capital do império. O monarca aproveitou a empreitada para homenagear o santo sufi Salim Chishti, que lhe abençoaria com um herdeiro. Akbar não conseguia ter filhos e partiu para o vilarejo de Sikri em busca de uma ajuda mística. Parece que deu certo e ele teve três herdeiros. Foi só quando pesquisei para escrever esse relato que descobri que esse é um dos motivos pelos quais muitos casais indianos sem filhos visitam o lugar anualmente.
Chegando lá, nos ofereceram um guia supostamente licenciado pelo governo. Topamos contratar o acompanhante com a condição de que queríamos ficar à vontade e conhecer as atrações no nosso ritmo. No final das contas, acho que não tivemos sorte porque não gostamos de nenhum guia que contratamos na Índia. Normalmente eles tinham pressa de acabar a visita e falavam um inglês pouco compreensível. Das poucas perguntas que fiz, quase nenhuma foi respondida adequadamente e eu continuei na ignorância, ansiosa para entrar no Google mais tarde a fim de saciar minha curiosidade, rs!
Fatehpur Sikri foi toda construída em arenito vermelho, material que podia ser trabalhado com uma certa agilidade e rapidez, fazendo com que a cidade fosse erguida num curto espaço de tempo para os padrões da época.
Fatherpur Sikri foi utilizada como capital durante 14 anos. Apesar da incrível estrutura, o complexo de construções sofreu muito com as altas temperaturas e a escassez de água, o que o fez ser completamente abandonado, tornando-se uma cidade fantasma.
Hoje em dia trata-se de um sítio arqueológico sem construções arruinadas e em 1986 foi tombada como Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Desde então, recebe a visita de milhares de turistas anualmente.
O imperador Akbar se interessava muito por conhecer outras religiões na prática e por isso resolveu se casar com três mulheres de credos diferentes: hinduísmo, islamismo e catolicismo. Foi interessante notar que a decoração da casa de cada esposa refletia sua religião.
Os tanques de água usados para abastecer a cidade receberam um tratamento artístico e pareciam piscinas, como vocês podem conferir na foto acima.
Fatherpur Sikri tem 3km de comprimento por 1km de largura e entre suas construções havia joalheria, tribunal, mesquita, palácios, salas de audiência, pátios, jardins, cozinha e escola comunitárias.
Os deslumbrantes entalhes decorativos e as pinturas que incrivelmente resistem à ação do tempo misturam os estilos hindu e islâmico. O trabalho minuncioso me encantou e é esse tipo de coisa que adoro fotografar e observar sem pressa.
Detalhes entalhados na pedra dura que parecem mais apropriados à maciez da madeira
O Hall da Audiência Privada (Diwan-i-Kas) foi a construção que mais me impressionou tanto por sua fachada quanto pelo seu belíssimo interior, onde se destaca o pilar da foto abaixo.
Trata-se de uma estrutura de arenito com base quadrada e eixo octagonal, coberta por desenhos geométricos, florais e símbolos de diversas religiões.
Essa menininha se aproximou da gente com um olhar curioso e eu perguntei se podia tirar uma foto dela, que logo tratou de fazer uma pose bem legal com direito à piscadinha de olho!
A seguir, fomos visitar a mesquita, única construção do complexo que continua em funcionamento.
A mesquita Jama Masjid de Fatherpur Sikri é uma das maiores da Índia e pode acomodar aproximadamente dez mil fiéis. Ela também abriga o túmulo do santo sufi Salim Chishti.
O místico previu que o imperador Akbar teria descendentes e assim seu túmulo se tornou a atração principal para casais ansiosos por filhos.
Visitamos a parte interna da mesquita depois do guia tentar nos convencer a fazer alguns pedidos para o tal “homem santo”. Antes de chegarmos lá, ele começou a contar essa história, perguntou se queríamos ter filhos e disse que visitaríamos o túmulo onde poderíamos fazer qualquer pedido. Só não poderíamos revelar a ninguém nossos desejos. Ele insistiu muito nisso e eu comecei a achar a coisa meio estranha…
Túmulo de Salim Chishti
Depois ele pediu que nos sentássemos em frente a um voluntário ou funcionário da mesquita que iria nos explicar alguma coisa. Mais tarde, descobri que se tratava de um vendedor. Hummm, senti cheiro de armadilha pra turista no ar… O Marcelo fez o seguinte comentário sobre esse espisódio:
“Essa é uma clássica situação de armadilha que busca constranger o turista a abrir a carteira para alguma coisa. Eu não tenho muito problema com isso, digo “não” solenemente. No fim das contas era para comprar uns panos que seriam oferecidos a sei lá quem, que o Sarkozy (?!) tinha comprado quando esteve lá e blablablá. “Não, obrigado” é a minha resposta automática. Katia ainda emendou com uma historinha de que nossa religião não permite comprar coisas para oferecer (?!) e assim rechaçamos a armadilha. Não foi a última da viagem. Enfim, frustramos a turma”.
Eu não consigo dizer “não” com a mesma facilidade do Marcelo, então sempre procuro uma justificativa que evite contra-argumentação. Foi aí que surgiu a ideia de dizer que nossa religião não permitia fazer oferendas que envolvessem dinheiro. Eu disse que poderia oferecer algumas horas de trabalho voluntário, um prato de comida, uma carona, roupas, sapatos etc., mas deveria ser algo espontâneo e não poderia nunca haver dinheiro envolvido. Era mentira, claro, mas os caras pareceram (ou fingiram) acreditar e não nos ofereceram mais nada.
Antes disso, o rapaz nos mostrou alguns pedaços de tecido e uma foto do Sarkozy e da Carla Bruni dizendo que ela engravidou imediatamente após a visita ao túmulo do Salim Chishti. Ora, se não podemos contar a ninguém nossos pedidos, como é que eles sabem que a Carla Bruni pediu para engravidar? Chega a ser divertido observar os caras querendo nos convencer a comprar oferendas mostrando uma foto do casal. Ah, tem mais uma coisa: se você não quiser comprar o tecido nem as pétalas de rosa, seu pedido não tem valor nenhum e não será realizado.
Pesquisando para esse post, li o seguinte relato extraído do site SEGREDOS DE VIAGEM:
“Para fazer um pedido você precisa prestar três homenagens: amarrar uma fitinha vermelha na janela, cobrir a tumba com um tecido bonito, e jogar pétalas de rosas por cima. Tudo isso, obviamente, você consegue comprar dentro da própria mesquita, pois há diversos vendedores por lá. Eu comprei o tecido mais simples, mas eles vão tentar de tudo pra te vender o tecido mais rebuscado, alegando que as chances de conseguir o milagre será maior, rs”.
É verdade, nos disseram que quanto mais caro o tecido, maiores as chances do seu desejo ser realizado… Como dizia Jack Palance, apresentador do meu programa preferido nos anos 80, “Acredite se quiser”.
Na saída da mesquita, esse grupo de simpáticos garotos pediu pra tirar uma foto com a gente.
Retornamos a Agra e nosso motorista, Mr. Khan, nos deixou no Agra Fort/Forte Agra, um dos monumentos mais importantes da cidade. O calor estava no auge, devia estar beirando os 40 graus e havia poucos turistas na entrada da atração. Mesmo assim, tivemos que dispensar alguns guias que insistiam em ser contratados. Não me interpretem mal, tivemos guias maravilhosos tanto em excursões quanto em viagens por conta própria e eu gosto da ideia de estar acompanhada por alguém que pode responder às minhas perguntas e que conte uma história bacana sobre os lugares que visitamos, mas isso simplesmente não aconteceu na Índia. Sendo assim, a partir de um certo momento, a gente resolveu que só contrataria guia se isso fosse obrigatório.
A construção do Agra Fort foi finalizada no ano de 1573. Apesar do nome, o complexo se assemelhava mais à uma cidade murada porque abrigava uma vasta gama de edifícios e espaços com diferentes funções como palácios, salões, varandas, torres de observação, mesquita etc.
Amar Singh Gate
Construído em arenito vermelho, o mesmo material utilizado em Fatehpur Sikri, o Agra Fort sofreu influência de três imperadores. Na época de Akbar era apenas um centro militar, Jahangir o expandiu e Shah Jahan o finalizou.
Jahangiri Mahal
Detalhes impressionantes do interior do Jahangiri Mahal
Detalhes impressionantes do interior do Jahangiri Mahal
O Taj Mahal aparecendo na janelinha
Foi no Agra Fort que tivemos nosso primeiro contato, mesmo que à distância, com o imponente Taj Mahal na outra margem do Rio Yamuna.
Taj Mahal visto do Agra Fort
Dizem que o imperador Shah Jahan, que ergueu o Taj Mahal, queria construir o seu próprio mausoléu em mármore negro e que este seria muito mais caro e deslumbrante. Posteriormente, o objetivo era uni-lo ao Taj por uma ponte de ouro. Essa ideia nunca saiu do papel e, após perder o poder, o imperador foi encarcerado no Agra Fort por um de seus filhos. A partir de seus alojamentos, ele contemplou sua obra prima até falecer.
Jardim persa
No Agra Fort também tive a oportunidade de fotografar umas moças simpáticas e sorridentes que cruzaram o nosso caminho!
Nessa época (maio de 2014) vimos pouquíssimos turistas estrangeiros. A maioria esmagadora dos turistas que encontramos eram indianos que aproveitavam as férias coletivas para viajar pelo país.
Depois de terminada a visita, nosso motorista nos levou ao “Baby Taj”, apelido do mausoléu Itimad Ud Daulah. Apesar de não ter a grandiosidade do Taj Mahal, a construção possui lindos detalhes trabalhados em mármore e recebeu essa alcunha por parecer uma miniatura da atração turística mais famosa do país.
O que muita gente não sabe é que o pequeno mausoléu foi erguido antes do grandioso Taj Mahal, servindo de inspiração para sua construção.
Os recursos estilísticos e ornamentais usados no Baby Taj eram novidade na Índia naquela época e determinaram as características mais proeminentes do Taj Mahal, como o revestimento em mármore branco e as incrustrações de pedras coloridas e outras semi-preciosas.
Parte interna do “Baby Taj”
Aqui também teve sessão de fotos com o pessoal local, claro!
Vejam que sorrisos lindos e espontâneos! Tirando os guias locais, vendedores, motoristas e a “malandragem” em geral que tinha segundas intenções, fiquei impressionada com a simpatia gratuita do povo indiano!
Depois de visitar o Baby Taj, seguimos para um parque chamado Mehab Bagh. É um lugar perfeito para fotografar o Taj Mahal de um ângulo menos conhecido e com pouca gente nos arredores. Nesse dia, só tinha a gente e alguns indianos fazendo um piquenique por perto.
O parque ocupa uma grande área verde e é ótimo para dar uma escapadinha do caos, barulho e poluição de Agra.
O interessante é que, pelo que pesquisei, poucos turistas sabem da existência desse lugar e os grupos de excursão não vão até lá.
Encerramos os passeios às 16hs. Ou seja, se o Taj Mahal abrisse naquele dia, teríamos ido em todas as atrações que nos interessavam na cidade. Mas ainda tínhamos outro dia inteiro pela frente em Agra. Sabendo disso, nosso motorista ofereceu de nos levar a Mathura e Vrindavan, duas cidades próximas. Topamos.
Acordamos às 6 horas da manhã e seguimos para o Taj Mahal, que ficava a uns 600 metros do nosso hotel. Caminhamos por um parque que dava para a entrada oeste do mausoléu e que já estava cheio àquela hora. Tinha muitos indianos por lá, mas poucos turistas estrangeiros porque, além de ser baixa temporada, as excursões só chegariam por volta das 9 horas.
Dispensamos os guias, compramos os ingressos e recebemos duas garrafinhas de água de brinde. O ingresso do Taj dá desconto em outras atrações e por isso vale a pena guardá-lo.
O Taj Mahal é a atração turística mais visitada da Índia e uma das sete novas maravilhas do mundo moderno. Recebe anualmente milhões de visitantes e foi o lugar onde vimos mais estrangeiros durante nossa estadia no país.